Nota do tradutor de “BEOWULF: UMA TRADUÇÃO COMENTADA” – Por Ronald Kyrmse

* A Nota do Tradutor (N.T.) abaixo foi escrita por Ronald Kyrmse para o livro “Beowulf: Uma Tradução Comentada”, mas acabou ficando de fora da edição final.

[Nota de Ronald Kyrmse, não incluída na versão brasileira]

A edição brasileira desta obra é uma tradução “de segundo nível”, já que o original do Beowulf está redigido em anglo-saxão, ou antigo inglês (Old English), a variante histórica do idioma inglês que se usou até aproximadamente o ano 1100, quando a influência da invasão normanda da Grã-Bretanha (1066) começou a se fazer sentir na sintaxe e no vocabulário. O poema foi traduzido por J.R.R. Tolkien, nos anos 1920, para o inglês moderno, porém mantendo grande parte da fraseologia poética do original. A edição em português procura manter para o leitor brasileiro algo desses padrões frasais, já atenuados por Tolkien e (provavelmente) um pouco falsificados pela versão da versão. Por isso, o leitor não deve se admirar se (por exemplo) um mesmo personagem, objeto ou ato for descrito de diversas formas, uma após a outra, como se o poeta, ao declamar, precisasse lembrar à sua plateia de quem ou do que se trata:

Hrothgar falou, protetor dos Scyldings […]

O chefe então lhe deu resposta, o líder da companhia abriu sua provisão de palavras […]

Sua nau veloz agora estava imóvel, o navio de casco fundo preso à amarra, firme na âncora.

Semelhantes a esses padrões frasais são os chamados kennings, termo técnico da poética medieval que em islandês significa “descrição”. São compostos que fazem “uma descrição parcial e muitas vezes imaginativa ou fantasiosa”[1] de termos recorrentes nos poemas: em anglo-saxão usam-se, por exemplo, swanrad “caminho do cisne” (mar), beadoleoma “raio de luz na batalha” (espada), woruldcandel “vela do mundo” (sol), goldwine “amigo do ouro” (senhor ou rei), banhus “casa dos ossos” (corpo). Um mesmo conceito pode ser denominado por diferentes kennings, sempre convencionais e portanto compreendidos pela platéia do poeta; assim, o corpo humano também pode ser flæschama “veste da carne” ou hreðerloca “prisão do coração”.

Diversos povos são mencionados nesta obra, alguns por seus nomes anglo-saxões. Entre os traduzidos, pode-se mencionar daneses e fineses, usados de preferência a dinamarqueses e finlandeses, por serem aquelas denominações mais breves e por não remeterem aos nomes de países (Dinamarca e Finlândia) cuja existência é mais recente. Na Balada de Beowulf, porém, por questões de métrica foi usado o termo Danos, com maiúscula para evitar confusão com o substantivo comum danos.

Na história Sellic Spell os nomes dos personagens (e de uma espada) foram traduzidos para acompanharem o caráter de “conto de fadas” do relato. Assim, Beewolf foi vertido como Lobelho (há uma nota explicando esta versão), e Breaker, Handshoe, Ashwood, Grinder, Unfriend, Unpeace, Gildenhilt como Vagalhão, Guante, Freixo, Triturador, Imigo, Sempaz e Punhodouro respectivamente.

[1] J.R.R. Tolkien em The Monsters and the Critics and Other Essays [Os Monstros e os Críticos e Outros Ensaios], 1983.

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3 respostas para Nota do tradutor de “BEOWULF: UMA TRADUÇÃO COMENTADA” – Por Ronald Kyrmse

  1. Luiz Felipe disse:

    Muito interessante essa questão dos kennings; vou procurar estudar sobre.

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  2. kyrmse disse:

    Para o tradutor, é importante dar o máximo de explicações, evitando que o leitor fique (muito) confuso com algumas peculiaridades do texto. Muitas vezes isso ocorre através das “N. do T.” de rodapé, bem comuns em obras de Tolkien. Neste caso achei conveniente colecionar algumas observações num texto prefatório*. Mas a editora julgou que isso não seria necessário. Paciência. Aqui está.

    *Sim, eu sei que esta palavra é pedante. [N.do T.]

    Curtido por 1 pessoa

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